Edição 320 | 2018

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27/08/2018 17:08

Vacinas em dia

Baixa adesão da população às campanhas de vacinação preocupa especialistas

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Os índices da cobertura vacinal de bebês e crianças tiveram nova queda em 2017 e atingiram o nível mais baixo do País nos últimos 16 anos. O levantamento do Ministério da Saúde identificou que todas as vacinas indicadas para crianças com menos de um ano não alcançaram a meta. A informação causa preocupação aos especialistas que têm identificado o aumento da ocorrência de algumas doenças, como Sarampo e Poliomielite.

“Seguir rigorosamente o calendário vacinal é importante em todas as idades, não só para se proteger de doenças que são facilmente evitáveis, como Sarampo ou Rubéola, mas também para prevenir aquelas que são consideradas graves e podem levar a morte, como é o caso do Tétano e da Meningite”, ressalta a Médica Infectologista do Hospital Copa D’Or, Júlia Herkenhoff Carijó.

Entre muitas possíveis justificativas para a ausência dos pais nas campanhas de vacinação do último mês, está o crescimento de movimentos antivacina que ameaça os resultados conquistados nos últimos anos, e podem contribuir no retorno de doenças que foram erradicadas ou que já estão controladas no Brasil e no mundo.

Para o ex-ministro da saúde, médico e criador do “Zé Gotinha”, Luiz Carlos Borges da Silveira, esse fato gera natural preocupação na saúde pública. “Sem dúvida, há uma espécie de conspiração contra a mobilização pela saúde pública. Inacreditavelmente, há pessoas e grupos com ideias antivacinação que disseminam conceitos estapafúrdios que vão de crenças religiosas a posições ideológicas. Esses grupos criam mitos e boatos, como sobre a imunização contra a gripe, de que a vacina faz com que a pessoa fique gripada, quando na verdade ela previne infecções e pode salvar muitas vidas. Esta realidade tem feito com que os médicos se mostrem vigilantes e dediquem mais tempo para o convencimento sobre a importância da imunização preventiva”, destaca.

O Brasil é um dos países que apresenta o maior número de campanhas de vacinação. De acordo com um estudo realizado esse ano pelo Ministério da Saúde, atualmente o País possui mais de 36 mil salas de vacinação, que juntas aplicam uma média de 300 milhões de imunobiológicos, e ainda exporta doses para mais de 70 países.

De acordo com a Opas - Organização Pan-Americana da Saúde, o Brasil é referência internacional no processo de produção de vacinas. “Ressalto que precisamos fazer a nossa parte e manter a carteira de vacinação em dia, independentemente da idade. Se tem dúvidas se já tomou todas as doses necessárias, procure orientação no posto de saúde mais próximo de sua casa”, recomenda a especialista do Hospital Copa D’Or.

A Polio está de volta
Atualmente a Poliomielite é ameaça constante e somente pode ser barrada com imunização. De acordo com dados oficiais há risco de retorno da doença sendo que mais de 300 cidades brasileiras estão abaixo da meta preconizada para vacinação, o que levará à formação de bolsões de pessoas não vacinadas, possibilitando, assim, a reintrodução do poli vírus e do Sarampo. O Ministério da Saúde reconhece que há dificuldade em cumprir as metas e foi feito novo alerta para a gravidade da situação.

“Tenho notado que as campanhas acabam prorrogadas, por não alcançarem as metas previstas. Parece que há desinteresse da população, e as doenças vão se alastrando. Entendo que, se campanhas educativas e de conscientização não estão surtindo efeito desejado, há que se buscar meios para isso e estabelecer punição de pais que se mostrarem desinteressados ou omissos, algo como suspensão de benefícios sociais ou mesmo multa pecuniária. Não será nenhuma arbitrariedade, pois se trata de saúde pública, do bem-estar da população” garante Silveira.
Para orientar pais e responsáveis, a infectologista do Hospital Rios D’Or, Renata Coutinho, esclarece dúvidas sobre vacinação, reforçando a importância de manter o calendário vacinal atualizado.

Por que é importante manter a vacinação infantil em dia?
A vacinação é um dos melhores métodos para prevenir as principais doenças infectocontagiosas da infância. E, além de ter benefício individual, existe um grande benefício coletivo, pois diminui a circulação dessas doenças na população em que essas crianças convivem. 

As vacinas são 100% seguras?
Recomenda-se a comparação entre os riscos da doença e os riscos da vacina. Exemplo, a febre amarela: o risco de ter um evento grave pela vacina é de 1 em 1 milhão de doses; e o risco de ter febre amarela selvagem grave é 10 em 100 casos – e a mortalidade é muito alta. Matematicamente, é incomparável o risco da doença selvagem e o risco da vacina.

Tem fundamento o motivo desta relutância dos movimentos antivacina?
A vacina é um produto médico imunobiológico dos mais seguros que existem por vários motivos. O principal deles é que ela é usada em larga escala. Em todos os programas de vacinação no mundo, o ideal é que se vacine 100% da população alvo. Então, exige-se um tempo bem extenso de estudo para introduzi-la no mercado. Inclusive, um estudo sobre sua funcionalidade. É preciso que esse produto seja de alta segurança, e, realmente, é.

Quais as consequências de não imunizar as crianças?
A principal e mais preocupante é o ressurgimento de doenças erradicadas e o aumento da incidência de doenças.

As reações das vacinas são menos prejudiciais se comparadas aos efeitos da doença em uma criança não imunizada?
Seguramente. E os pais/responsáveis têm que compreender que algumas doenças são graves e inerentes as condições clínicas das crianças. Ou seja, este é um contra-argumento para aqueles que acreditam que crianças saudáveis e bem nutridas estariam imunes de doenças, não precisando ser vacinadas. O ideal é que esta concepção seja aceita por todos, pois, por exemplo, a pneumococcemia pode matar qualquer criança, inclusive as saudáveis. A gente já passou por experiência de mães que tinham essa filosofia e mudaram de ideia uma vez que os filhos estavam na UTI com doenças que seriam imunopreviníveis, ou seja, que poderiam ser evitadas com a vacinação.
Existe algum fator que impeça a criança de tomar vacina?
Dependendo da vacina, sim. Por exemplo, não devem ser vacinadas crianças que têm comorbidade específica, imunodeficiência, portadora de HIV, transplantado de medula, doença renal crônica e transplantado de órgão sólido.

Para quais reações deve-se ligar o alerta de que algo deu errado?
Placas ou pintas no corpo até 24 horas depois a vacinação, convulsão com ou sem febre e alguma dificuldade motora. A criança deve ser encaminhada ao serviço de emergência e/ou ao médico pediatra.

Qual o melhor período do dia para vacinar as crianças?
Do ponto de vista prático, o ideal seria pela manhã, pois, assim, teria o dia inteiro para observar. De noite, todos estão dormindo. Mas não é um procedimento que exija o acompanhamento dos pais o dia todo, pois, geralmente, as crianças ficam bem.

Criança doente pode tomar vacina?
A contraindicação para vacinar são doenças febris agudas graves. Mas, em caso de dúvida, indica-se buscar orientação do pediatra.

Pode tomar mais de uma vacina em um dia?
As que são programadas para serem juntas no calendário não têm interferência de resposta vacinal. Mas, existem outras com indicação de intervalo mínimo de aplicação, exemplo da tríplice viral e febre amarela. Isso tudo é respeitado pelo esquema de vacinação pública, que tenta ao máximo simplificar as vacinações, diminuindo as chances de falha de cobertura e o número de visitas dessa criança nos postos.
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